Humor e poder O jornalismo de humor e a caricatura política se popularizaram no século XIX quando na Europa a imprensa se desenvolvia e expressivos setores lutavam contra as monarquias absolutistas. Pena, lápis e pincel dos artistas estavam apontados para reis, imperadores, czares e seus ministros. Um dos mais importantes caricaturistas de todos os tempos, o francês Honoré Daumier, amargou, em 1832, seis meses de prisão após publicar caricatura do rei Luís Felipe I como Gargântua, o personagem glutão da comédia Gargântua e Pantagruel, de François Rabelais. No Brasil, um dos pioneiros do humor gráfico nacional, o ítalo-brasileiro Angelo Agostini, usou seu talento para fustigar a monarquia e a escravidão. Com a tolerância do imperador Pedro II e as garantias da monarquia constitucional, Agostini notabilizou-se pela sua luta abolicionista. O Barão de Itararé, pseudônimo jocoso de Aparício Torelli, num extremo de ironia, quis transformar o seu jornal A Manha no substituto do Diário Oficial em apoio ao presidente Washington Luiz. E pedia que as autoridades se dirigissem à tesouraria do jornal e fizessem as devidas gentilezas ao “nosso querido diretor”. O semanário tinha como lema a frase “quem não chora não mama” e, além de ironizar o jornalismo oficialesco e governista de então, era um feroz crítico dos governos. Saía sempre às quintas-feiras, um “quinta-ferino” como se auto-intitulava, fechado várias vezes pelo presidente Getúlio Vargas. O jornalista Aparício Torelli foi um assíduo frequentador dos cárceres da ditadura varguista. A tradição de crítica e irreverência da imprensa de humor continuou com o Pasquim, o semanário satírico fundado em 1969 e muitas vezes censurado pelos governos militares. A posição do jornal era expressa na anedota do náufrago espanhol que sobrevive e alcança uma ilha do Caribe. Anarquista convicto, ao encontrar um nativo dispara: - Hay gobierno en esta isla? Soy contra! Ziraldo, um dos fundadores do Pasquim, costuma dizer que não existe governo perfeito e cabe ao humorista apontar o dedo para as mazelas oficiais. Millôr Fernandes, um dos mais expressivos nomes do humor nacional, afirma que “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Do alto dos seus 86 anos, completados em maio, o “filósofo do Méier”, bairro carioca onde nasceu, diz ainda que o humor é necessariamente crítico. Ou seja, a tarefa do humor é vergastar os poderosos de plantão. Que fiquem incomodados ou não o governo e seus partidários. Cláudio de Oliveira é jornalista e cartunista do jornal Agora São Paulo.
Escrito por cláudio de oliveira às 08h00
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